O Mito da Semana de 22
Um dos mais respeitados curadores de arte do país, Paulo Herkenhoff, atual
curador do Moma de Nova York desloca o centro do modernismo de São Paulo para
o Rio de Janeiro.
A tese defendida pelo curador é a de que a arte
moderna brasileira teve início bem antes da tão propalada Semana de 22.
Basta o núcleo reunindo obras de artistas do século 19 mas desligados da
academia, como Eliseu Visconti, Timóteo da Costa e Belmiro de Almeida, para
mostrar como as experimentações de cunho impressionista ou expressionista já se
faziam presentes por essas terras. Basta citar Maternidade em círculos, pintado
em 1908 por Almeida, na qual está retratada
uma Madona com seu filho por
meio de círculos superpostos, cuja radicalidade é tamanha que a obra foi
escolhida para o convite da exposição. "Não há consciência de superfície na arte
brasileira até os anos 40 comparável a essa", afirma Herkenhoff.
Jogar definitivamente por terra essa falsa idéia de primazia dos
modernistas da Semana já conta com ampla concordância de
historiadores, que igualam a mitomanização da Semana de 22 ao do mito dos Bandeirantes.
O ponto nevrálgico de sua teoria - já esboçado na exposição Trajetória da Luz na
Arte Brasileira, realizada ano passado no Itaú Cultural - é a crítica virulenta
a uma articulação de poder econômico e político que deturpa a história da arte
brasileira e coloca São Paulo como motor da modernidade
no País. "22 é
muito mais um mito do que resultado de um processo concreto e a história da arte
brasileira foi muito empobrecida ao se negar esse passado", afirma ele. E
cita como exemplo de que a modernidade se fez muito mais viva, intensa e precoce
no Rio o fato de que enquanto São Paulo jamais reconheceu a modernidade da
música popular, o Rio já gerava figuras essenciais como Pixinguinha e Ernesto de
Nazaré.
Se ficarmos no campo apenas da pintura, uma arte muito mais
elitista do que a música, também há exemplos de rupturas bem radicais entre os
que acabaram equivocadamente chamados de "acadêmicos", como Castagneto. "Não se
pode negar que era uma pintura que rompia os cânones, mas até hoje se faz um
silêncio permanente sobre esses índices."
A reação virulenta que se
segue às afirmações de que a hegemonia moderna paulista é falsamente
construída em decorrência de um projeto de poder não parece incomodá-lo. Ao
contrário: a irritação parece servir diretamente a seu interesse de desmontar
ficções, não importa se elas tenham sido construídas em torno de figuras
hoje inquestionáveis como Sergio Camargo, a quem chama de derivativo, e Oswald
de Andrade.
http://www.estadao.com.br/arquivo/arteel
Abaixo: quadros de Belmiro de Almeida, Eliseo Visconti e Timóteo da Costa







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