terça-feira, 1 de junho de 2010

MAR - Museu de Arte do Rio (projeto)


MAR à vista
O Museu de Arte do Rio, que vai ocupar dois edifícios da Praça Mauá, é o primeiro projeto de revitalização da zona portuária a sair do papel
Suzana Velasco










A ideia é unir dois edifícios esteticamente antagônicos, um deles tombado, para criar, num espaço integrado, um museu que contasse a História do Rio e desse visibilidade às principais coleções de arte da cidade. Somado a isso, uma escola estimularia a criatividade com um projeto de educação visual. Abraçada por pensadores e arquitetos de renome, a ideia se tornou projeto e, na próxima terça-feira, ganha sua pedra fundamental na Praça Mauá. Previsto para ser inaugurado no primeiro trimestre de 2012, o Museu de Arte do Rio — ou, mais poeticamente, o MAR — é o primeiro empreendimento a sair do papel na tão falada revitalização da zona portuária da cidade, com um investimento de R$ 43 milhões da prefeitura e realização da Fundação Roberto Marinho.
O curador do MAR, Leonel Kaz, encarou o desafio conceitual de pensar o conteúdo da instituição convidando um eclético time de consultores e colaboradores — incluindo o historiador Rafael Cardoso, o filósofo Auterives Maciel e o crítico e curador Paulo Herkenhoff, que batizou o museu, substituindo o nome Pinacoteca, divulgado em 2009. O desafio arquitetônico ficou a cargo do escritório de Thiago Bernardes e Paulo Jacobsen, que desenvolveu muitos projetos até chegar à solução final, valorizando tanto a arquitetura neoclássica do tombado Palacete Dom João VI, de 1916, quanto as linhas modernistas do edifício vizinho, da década de 40. Somando 8.500 metros quadrados, os espaços serão interligados por passarelas e uma estrutura que, imitando o movimento das ondas do mar, cobre os prédios. Num dos terraços, um teleférico levará os visitantes ao Morro da Conceição.
— Queríamos uma unidade, e não edifícios competindo — conta Jacobsen. — Quando estávamos trabalhando com formas retas, o projeto ficava ruim em relação a uma edificação ou a outra. A ideia de uma estrutura fluida, mais molenga e irreverente, faz analogia ao mar e é algo completamente diferente dos dois prédios.
A arquitetura segue a proposta de que o MAR seja um só, mesmo havendo diferentes funções para os edifícios. O espaço de exposições será a construção neoclássica — também conhecida como Palacete Mauá —, sem uso por mais de dez anos, e a Escola do Olhar ocupará o prédio modernista — cedido pelo governo do estado —, onde funcionava um hospital da Polícia Civil. Atrás dos dois edifícios, a marquise da primeira rodoviária do Rio, também tombada, teve que ser preservada e abrigará serviços do museu, como uma loja.

Destaque para as coleções privadas do Rio

Os dois primeiros andares do edifício da década de 10 receberão o que Kaz chama de exposições-diálogo, mostras temporárias para criar relações entre coleções do Rio e a arte estrangeira. Embora não descarte a parceria com acervos públicos — que ficam em grande parte escondidos dos visitantes nas reservas técnicas dos museus —, o curador pensa inicialmente em exibir obras privadas, de colecionadores como João Sattamini, Jean Boghici, Gilberto Chateaubriand, Sergio Fadel e Luís Antonio de Almeida Braga.
— O Rio de Janeiro tem algumas das mais importantes coleções do Brasil, e a maior parte dos artistas brasileiros mora na cidade. Não por acaso, fomos capital do país e, do ponto de vista da visualidade, ainda somos — afirma Kaz, ressaltando que o MAR não deve ser um museu tradicional. — Queremos fazer exposições como a Tate Modern, num mix de fotografia, moda, arquitetura, e unir obras de coleções do Rio a outras do resto do mundo.
Quando transformado em MAR, o Palacete Dom João VI terá o terceiro e o quarto andares reservados a uma exposição permanente sobre o Rio de Janeiro, que terá como base a mostra “Paisagem carioca”, organizada por Carlos Martins no Museu de Arte Moderna (MAM) em 2000. O objetivo é intensificar o uso dos meios multimídia e criar um panorama da identidade visual do Rio de Janeiro, com cartazes de época, mapas, caixas de marchetaria, flâmulas e estampas. Tudo como uma grande brincadeira que possa, como espera Kaz, “dragar” o visitante: — Será uma mostra permanente, mas seus elementos podem se modificar. Todos os museus concebidos depois da internet têm que ser uma obra em progresso, não há mais como formar acervos públicos. O país já tem muitas coleções, o que elas precisam é de restauro, proteção. E o Rio não tem lugar algum onde as escolas, os visitantes brasileiros e estrangeiros e os próprios cariocas possam conhecer a História da cidade.
Vik Muniz colabora na escola

Dois vãos no interior do museu — um entre os andares inferiores, o outro entre os superiores — permitirão a exibição de peças monumentais, de até dez metros de altura. Mas, antes de conhecer as exposições, o visitante precisará passar pela Escola do Olhar. Entrando por um vão entre as duas construções, ele poderá chegar aos pilotis do edifício dos anos 40, onde elevadores de alta velocidade irão diretamente ao terraço. Ali, poderá escolher entre percorrer uma passarela para ir ao museu ou descer à escola, que terá áreas fechadas, como salas de ensino, e outras abertas, propícias ao encontro. — O modernismo do prédio estava escondido por muretas e janelas horrorosas. A gente deixou ele aparecer — conta Jacobsen. — Descascamos o prédio para expor sua estrutura e criamos umas caixinhas e varandas para que a Escola do Olhar também funcione de forma fluida. O movimento das pessoas aparece, dando um ar mais relaxado, carioca, que rompe os parâmetros do que seja um museu sério.
Se o conceito das exposições já está mais definido, o funcionamento da escola ainda é um mistério. A ideia surgiu numa conversa entre o artista plástico Vik Muniz, Kaz e a filósofa Nigge Loddi — os dois últimos foram curadores de uma grande exposição do artista no MAM. Hoje, Nigge e Vik, que costuma repetir como um mantra a importância da educação visual, são colaboradores do projeto da escola. No início, ela deve funcionar para alunos e professores de escolas municipais, usando a região histórica do Centro do Rio e o próprio museu conexo como elementos de estímulo à criatividade e ao aprendizado visual.
— O olhar não é apenas contemplação, é ser arrebatado pela cidade, pelo entorno. A percepção pode ser modificadora — afirma Kaz. — Queremos usar a região, o Morro da Conceição, como campus experimental da escola, e as exposições do museu como laboratório.
Os prédios já passaram por toda a demolição necessária para a reforma e a construção. Na quarta-feira, dia seguinte ao lançamento do projeto, tapumes coloridos criados pelo designer Jair de Souza vão cobrir os edifícios, indicando o começo oficial das obras. À frente do projeto Porto Maravilha, de revitalização da zona portuária, o secretário municipal de Desenvolvimento, Felipe Góes, diz que os R$ 43 milhões são destinados apenas à execução do projeto. A prefeitura espera que, quando for inaugurado, o MAR atraia investimentos privados, além da própria receita de suas atividades.
Se depender do curador, essas atividades serão as mais diversas possíveis, tanto no interior do museu — que terá ainda biblioteca e mediateca — quanto nos pilotis e no auditório da escola, de 226 lugares, no café-bar de uma das coberturas e no mirante do outro terraço, de 500 metros quadrados: — Não queremos ter horário de museu, queremos funcionar no horário da Praça Mauá — sonha Kaz. — O projeto dialoga com quase 500 anos de História. É um museu beira-morro, que leva o Morro da Conceição para a beira do mar. E ainda vai dialogar com o Museu do Amanhã.


Museu do Amanhã será vizinho

O curador se refere ao outro museu previsto para a região onde um dia se planejou instalar o Guggenheim. Com projeto do espanhol Santiago Calatrava, será mais uma contribuição da arquitetura contemporânea para a cidade, vizinha à dos cariocas Bernardes e Jacobsen. — Toda a área da Praça Mauá é especialíssima, o prédio da Polícia Federal é tombado, o Morro da Conceição também. Agora, precisamos valorizar a produção contemporânea de arquitetura. O patrimônio do futuro tem que começar a ser feito hoje — afirma Washington Fajardo, subsecretário municipal de Cultura, responsável pela área de patrimônio. — Teremos um equipamento cultural que, além de relevante pelo aspecto museológico, tem uma solução arquitetônica não só feliz como provocadora.
O MAR será uma das pontas de um eixo cujas instituições têm diferentes funções e arquiteturas de épocas distintas.
Do MAM, no Aterro do Flamengo, passando por toda a Avenida Rio Branco, com o Teatro Municipal, a Biblioteca Nacional e o Museu Nacional de Belas Artes, poderá se chegar a uma região hoje abandonada, sem vida cultural. Se tudo correr como o previsto, 2012 já verá o mar voltar simbolicamente à Praça Mauá.

O Globo (impresso) - 30/05/2010

Nenhum comentário: